terça-feira, 5 de abril de 2011

A Alegria na Tristeza - Crônica de Martha Medeiros

O título desse texto na verdade não é meu, e sim de um poema do uruguaio Mario Benedetti. No original, chama-se "Alegría de la tristeza" e está no livro "La vida ese paréntesis" que, até onde sei, permanece inédito no Brasil.

O poema diz que a gente pode entristecer-se por vários motivos ou por nenhum motivo aparente, a tristeza pode ser por nós mesmos ou pelas dores do mundo, pode advir de uma palavra ou de um gesto, mas que ela sempre aparece e devemos nos aprontar para recebê-la, porque existe uma alegria inesperada na tristeza, que vem do fato de ainda conseguirmos senti-la.
Pode parecer confuso mas é um alento. Olhe para o lado: estamos vivendo numa era em que pessoas matam em briga de trânsito, matam por um boné, matam para se divertir. Além disso, as pessoas estão sem dinheiro. Quem tem emprego, segura. Quem não tem, procura. Os que possuem um amor desconfiam até da própria sombra, já que há muita oferta de sexo no mercado. E a gente corre pra caramba, é escravo do relógio, não consegue mais ficar deitado numa rede, lendo um livro, ouvindo música. Há tanta coisa pra fazer que resta pouco tempo pra sentir.

Por isso, qualquer sentimento é bem-vindo, mesmo que não seja uma euforia, um gozo, um entusiasmo, mesmo que seja uma melancolia. Sentir é um verbo que se conjuga para dentro, ao contrário do fazer, que é conjugado pra fora.

Sentir alimenta, sentir ensina, sentir aquieta. Fazer é muito barulhento.

Sentir é um retiro, fazer é uma festa. O sentir não pode ser escutado, apenas auscultado. Sentir e fazer, ambos são necessários, mas só o fazer rende grana, contatos, diplomas, convites, aquisições. Até parece que sentir não serve para subir na vida.

Uma pessoa triste é evitada. Não cabe no mundo da propaganda dos cremes dentais, dos pagodes, dos carnavais. Tristeza parece praga, lepra, doença contagiosa, um estacionamento proibido. Ok, tristeza não faz realmente bem pra saúde, mas a introspecção é um recuo providencial, pois é quando silenciamos que melhor conversamos com nossos botões. E dessa conversa sai luz, lições, sinais, e a tristeza acaba saindo também, dando espaço para uma alegria nova e revitalizada. Triste é não sentir nada.


Artigo postado por: A Luz e a Sombra 

12 comentários:

  1. Olá!

    É, nos dias atuais muito se faz para aparecer e pouco se faz pra reconhecer, pra se entender e tão pouco em função do bem do outro, por isso, essa confusão toma conta e aparece apenas como um caos! Na verdade o mais importante é se conhecer e dentro disso, podemos criar em nosso ritmo, reconhecendo os valores em si e gerar valores internos que estes com certeza agregam valores externos. Quando nos conhecemos e damos valor a tudo o que sentimos e aprendemos que o mal é apenas um mestre que nos faz avançar em nosso próprio desenvolvimento, trazemos os talentos mais profundos de nossa Alma para compartilhar com calma o nosso sucesso de apenas ser e nos sentir repletos de vida, participando da melhor forma contida em nosso ser! Obrigada por compartilhar!

    Um abraço,
    "Todo o Conhecimento é Luz que Inspira a Alma" -*Vera Luz*-

    ResponderExcluir
  2. Querida Vera, é muito bonito teu comentário.
    Eu sempre pensei que quando estamos com nosso regador vazio, não podemos dar agua as flores. Daí a importância de nos preenchermos de valores e amor para assim poder distribuir.
    Um abraço fraterno e carinhoso.

    ResponderExcluir
  3. Nosso cordis nos engana muito, não devemos atentar a tudo que fala, mas precisamos ter cuidado com tudo o que o coração diz, pois assim como fala a verdade intensamente, à mesma proporção pode nos iludir; parabéns pela postagem, um grandea braço.

    ResponderExcluir
  4. Olá Rangel. Realmente nosso coração, intuição e sentimentos podem estar focados em equívocos, mas geralmente a partir de nossa interpretação racional.
    Outro grande abraço

    ResponderExcluir
  5. Olá querida !!!

    Inspirador este texto, fiquei aqui refletindo que é realmente uma verdade... primeiro que na correria do dia a dia, tem momentos em que vamos no piloto automático e acabamos ficando mais insensíveis diante de certas situações, como se fosse perda de tempo sentir o que realmente aquele momento nos causa e concordo que a introspecção que às vezes ocorre na vinda da tristeza, nos traz sempre reflexões e questionamentos que podem nos auxiliar a crescer e quem sabe valorizar ainda mais quando a alegria chegar !!
    Adorei !
    Beijossssssss

    ResponderExcluir
  6. Olá Andrea querida!
    Estou confusa, tomada por emoção e sentimentos diante do ocorrido hoje no RJ. Chorei muito, não pude conter a emoção, pois sou mãe e também humana! Não consigo, por mais que queira, agora encontrar razões para imaginar alegria nessa tristeza. Concordo que sentir ainda é melhor do que não sentir nada...porém, quando o corpo e a mente ficam entorpecidos diante dessa barbaridade, a confusão dos sentimentos não indica o que virá depois... Já escrevi que ganhamos com as perdas... aprendizado, fortalecimento, enfim, temos que ter algum tipo de visão que nos dê conforto e nos permita seguir adiante...apesar do vazio causado pelas perdas... Sei que um dia as respostas virão, a conformidade, a paz ou o perdão... Mas, no momento, a dor que entorpece não nos permite enxergar a alegria nessa tristeza...
    Tem horas, querida, que seria melhor não sentir... mas, para quem tem coração e algum vestígio de humanidade, isso é impossível!
    Grande beijo,
    Jackie

    ResponderExcluir
  7. Oi querida Samanta.
    Você de alguma forma, inexplicável, transmite o dom da alegria e do oposto da tristeza.
    E concordo plenamente com tuas observações.
    Um grande abraço e obrigada por esta centelha de luz que deixas aqui ao passar.

    ResponderExcluir
  8. Queridas Jackie e Samanta. Vocês expressam com pertinência diferentes estágios de tristeza e felicidade. Mas estes, como sentimentos normais do cotidiano, da vida diária de todos nós. Mas neste momento qualquer uma das duas, tenho certeza,não podem enquadrar num momento do nosso cotidiano, a tristeza e porque não dizer, o desespero, desencanto, estupefação por presenciar em nosso País corrupto, mas até então livre destas atrocidades internacionais, envolvido neste tipo de atitude indescritível de irracionalidade e maldade. Não existem palavras para descrever, mas muito o que pensar.
    Um abraço e paz acima de tudo.

    ResponderExcluir
  9. Gostei do texto! A tristeza, frequentemente, ajuda-nos a refletir, a olharmos o que há por dentro. Quando estamos felizes não há espaço para questionamentos e reflexões. Se a tristeza faz parte da vida, melhor senti-la e expurgá-la. Vida plena é isso, não é? Viver a vida com tudo o que deve ser vivido.
    Bjo e paz e sorrisos.

    ResponderExcluir
  10. Olá Marinha.
    Muito apropriado teu comentário e aproveito para concordar com esta abordagem.
    Pois realmente é na tristeza que paramos para refletir e elaborar todas as nossas crises.
    Um grande abraço e obrigada pela contribuição.

    ResponderExcluir
  11. Realmente "Senti a Crônica" Martha Medeiros e fiquei emocionado. Pois ela consegui diserta diserta em palavras, a mesma conclusão que tenho em meu coração.

    Como é bom ver um testo bem escrito! Viva a Internet.

    ResponderExcluir
  12. Que maravilha tecgl, saber que foi possível contribuir para enaltecer este canal fantástico de comunicação e interação.
    Abraços carinhosos.

    ResponderExcluir

Seu comentário é muito importante para nós.
Participe.