terça-feira, 15 de março de 2011

Canção das mulheres - Lya Luft

Que o outro saiba quando estou com medo, e me tome nos braços sem fazer perguntas demais.

Que o outro note quando preciso de silêncio e não vá embora batendo a porta, mas entenda que não o amarei menos porque estou quieta.

Que o outro aceite que me preocupo com ele e não se irrite com minha solicitude, e se ela for excessiva saiba me dizer isso com delicadeza ou bom humor.
Que o outro perceba minha fragilidade e não ria de mim, nem se aproveite disso.

Que se eu faço uma bobagem o outro goste um pouco mais de mim, porque também preciso poder fazer tolices tantas vezes.

Que se estou apenas cansada o outro não pense logo que estou nervosa, ou doente, ou agressiva, nem diga que reclamo demais.

Que o outro sinta quanto me dói a idéia da perda, e ouse ficar comigo um pouco — em lugar de voltar logo à sua vida, não porque lá está a sua verdade mas talvez seu medo ou sua culpa.

Que se começo a chorar sem motivo depois de um dia daqueles, o outro não desconfie logo que é culpa dele, ou que não o amo mais.

Que se estou numa fase ruim o outro seja meu cúmplice, mas sem fazer alarde nem dizendo “Olha que estou tendo muita paciência com você!”

Que se me entusiasmo por alguma coisa o outro não a diminua, nem me chame de ingênua, nem queira fechar essa porta necessária que se abre para mim, por mais tola que lhe pareça.

Que quando sem querer eu digo uma coisa bem inadequada diante de mais pessoas, o outro não me exponha nem me ridicularize.

Que quando levanto de madrugada e ando pela casa, o outro não venha logo atrás de mim reclamando: “Mas que chateação essa sua mania, volta pra cama!”

Que se eu peço um segundo drinque no restaurante o outro não comente logo: “Pôxa, mais um?”

Que se eu eventualmente perco a paciência, perco a graça e perco a compostura, o outro ainda assim me ache linda e me admire.

Que o outro — filho, amigo, amante, marido — não me considere sempre disponível, sempre necessariamente compreensiva, mas me aceite quando não estou podendo ser nada disso.

Que, finalmente, o outro entenda que mesmo se às vezes me esforço, não sou, nem devo ser a mulher-maravilha, mas apenas uma pessoa: vulnerável e forte, incapaz e gloriosa, assustada e audaciosa — uma mulher.

Crônica extraída do livro "Pensar é Transgredir" de Lya Luft.
 

8 comentários:

  1. Oi minha querida Andréa!
    É maravilhoso esse texto da Lya Luft! Aliás, amo tudo que ela escreve e gosto de ler os seus livros!
    Minha linda, acho que esse texto é bom para você saber que independente dos seus medos você é uma simples mortal...com direitos às dúvidas e ao recolhimento... Mas, desejo de coração que você encontre em cada dia, uma oportunidade rara de aprender e se libertar de tudo que te aprisiona! Seja livre! Mesmo que essa liberdade implique em se libertar um pouco de si mesma!
    Grande beijo,
    Jackie

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  2. Oi Jackie.
    Obrigada pelas palavras de carinho e pela sua presença aqui no meu cantinho.
    Eu também adoro as crônicas da Lya Luft, parece que ela fala por nós...
    Pois a idéia do Blog é essa mesma, postar textos que me ajudem a refletir, e esse texto me mostra que todas temos direito a nossas fragilidades.
    Valeu pelo apoio Jackie.
    Um beijão.

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  3. Eu definitivamente tenho que ler mais Lya Luft!!! Lindo texto escolhido Andréa, mostra bem as duas fazes que todos nós temos e para as quais desejamos apenas aceitação, aceitação para o nosso momento, seja de força seja de fraqueza. GRANDE abraço minha querida.

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  4. Nossa... Completamente profundo...Lindo demais...Parabéns pela postagem...Bjs

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  5. Querida Andréa.
    A escolha deste texto representa muito bem tua sensibilidade para nos brindar com tão lindas palavras.
    Obrigada e um abração.

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  6. Oi Ademar.
    Eu adorei esse texto também, alias tudo o que ela escreve é muito bom.
    Na minha interpretação ela coloca como desejamos ser aceitos e respeitados em momentos diversos mas, se nos colocarmos no lugar do próximo o texto ensina a aceita-lo, respeita-lo e compreende-lo.
    Devemos sempre lembrar que "A vida é uma via de mão dupla".
    Um abração.

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  7. Oi Angelsmsales.
    Obrigada pela visita e seja bem-vinda.
    Que bom que gostou, esse texto é lindo mesmo.
    Um abraço.

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  8. Oi kenia davero.
    Que bom ver você por aqui!
    Obrigada pelos elogios, vou te contar um segredo: esse texto me lembra com muita clareza o que uma amiga muito especial sempre fala que "A vida é uma via de dupla", ela pode até nem saber o quanto essas palavras me ensinaram a sempre me colocar no lugar do próximo.
    O texto não representa somente o que eu espero do outro, mas também o que eu posso fazer pelo outro.
    Um beijão garota.

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